Anta de Santa Marta
Anta de Santa Marta

Portugal, do Neolítico à Idade do Bronze

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As primeiras aldeias de agricultores no que é hoje Portugal apareceram à 7500 anos. Ao longo dos milenares seguintes, a civilização dos antepassados portugueses vai construir-se aos poucos…

De onde vieram os primeiros agricultores “portugueses”?

O Neolítico, a grande revolução humana que levou ao aparecimento das primeiras sociedades organizadas em torno da agricultura e da pecuária, ainda é hoje um período cujo povoamento é mal conhecido. Os primeiros povoados neolíticos surgiram naquilo que é hoje a Estremadura e o sul de Portugal por volta dos meados do VI milénio a. C. Dois modelos tentam explicar o que levou populações que ainda eram caçadores-coletores nómadas típicas do Mesolítico para populações cada vez mais sedentárias.

Agricultura indígena?

O primeiro modelo, indigenista, pressupõe que as populações locais chegaram à agricultura pela necessidade de se adaptarem. Com a mudança de clima, com o crescimento demográfico, foi necessário utilizarem novas técnicas e tecnologias que começavam a difundirem-se pelo sul da Europa. A pesca e a caça já não chegavam para alimentar o acréscimo populacional. Sendo que as diferentes populações europeias estavam sempre em contato com os grupos vizinhos, a difusão das novidades era facilitada.

habitação neolítica
Exemplo hipotético de habitação neolítica. Musée de Préhistoire des gorges du Verdon

Para suportar este modelo, os investigadores tomaram como exemplo o concheiro de Medo Tojeiro, em Odemira. Este estacionamento sazonal prefigura uma transição progressiva para o Neolítico, já que nele conviveram elementos tipicamente de sociedades de caçadores-coletores (ausência de agricultura e de animais domésticos) com elementos tais como um machado de pedra polida ou cerâmica. O sítio de Samouqueira, no concelho de Aljezur, também abunda nesse sentido, com dois núcleos (um do Mesolítico, e o outro do Neolítico Antigo) onde não se evidenciam ruturas entre eles.

Agricultura vinda de fora

O segundo modelo, difusionista, diz-nos que os progressos do Neolítico foram trazidos por populações de fora que se estabeleceram no litoral meridional de Portugal e nas zonas inabitadas do Maciço Calcário Estremenho. Já conheciam a agricultura, já domesticavam animais, e viviam em pequenas comunidades sedentárias. Foi a partir destas comunidades “estrangeiras” que a população indígena adotou progressivamente os traços característicos do Neolítico.

A arqueologia tende a preferir este segundo modelo, com as pesquisas efetuadas em dois sítios do concelho de Vila do Bispo que o confirmam: a estação da Cabranosa e o sítio de Padrão. Os achados arqueológicos, datados nos meados do VI milénio a. C., são tipicamente neolíticos, com presença de pedras polidas, animais domésticos e cerâmica. A cerâmica, com decorações cardiais, é um forte indício para um povoamento dos sítios exogéneo do território português. Os elementos técnicos e culturais da Cabranosa são assim bem diferentes do que se pode encontrar em outras estações arqueológicas contemporâneas da região.

Cerâmica encontrada em Braga
Cerâmica encontrada em Braga

Em 2016, pesquisas confirmaram pelo ADN que a população portuguesa atual teve mudanças significativas com povos oriundos do mar Egeu, por volta dos meados do VI milénio a.C. Também não é provado que terá sido um esgotamento de recursos o motor da neolitização como exposto no modelo indigenista, pois não se verificou por exemplo uma baixa da população de conchas Thais haemastoma, uma espécie presente no litoral da Costa Vicentina. Os concheiros sazonais continuaram de existir sem descontinuidade no Neolítico.

Por fim, em favor do modelo difusionista, a ausência de população prévia à chegada dos neolíticos exogéneos. Os concheiros mesolíticos do barlavento algarvio foram ocupados na segunda metade do VII milénio – início do VI milénio a. C. Quando os neolíticos chegaram à Cabranosa, os concheiros já não eram ocupados há vários séculos, validando a existência simultânea de dois grupos populacionais tecnologicamente diferentes em pontos distintos do território português.

Porém, os dois modelos não são incompatíveis, os progressos não tendo sido uniformes em todo o território português. De facto, durante 500 anos vão coexistir duas populações em territórios próximos, mas distintos. Entre 5500 e 5000 a. C., os grupos mesolíticos e os grupos neolíticos vivem lado a lado, com poucas trocas aparentes de técnicas e saberes. Só no período seguinte, de 5000 a 4750 a. C. é que as derradeiras populações ainda mesolíticas adotam por fim as características do Neolítico. A agricultura não veio assim substituir a economia de caça ou colheita, sendo esta última complementar da primeira.

Megalitismo

O Neolítico é conhecido na Europa pelas suas construções megalíticas. Portugal não é excepção, e numerosos menires, antas e cromeleques estão presentes um pouco por todo o território nacional.

Anta de Santa Marta
Anta de Santa Marta, Penafiel

Os primeiros megálitos edificados em Portugal, datados da primeira metade do V milénio a. C. são dos mais antigos conhecidos actualmente. Pensamos hoje que os mais antigos eram monumentos funerários, dedicados a grandes personalidades de povos semi-nómadas.

Até finais do IV milénio a. C. surgem megálitos cada vez maiores. O Alentejo é nesta altura um dos maiores focos do megalitismo europeu. O Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, é um dos principais sítios megalíticos da Europa.

Cromeleque dos Almendres
Cromeleque dos Almendres

Este cromeleque só foi identificado nos anos 1960, o que explica o seu relativo desconhecimento por parte do grande público, apesar da sua importância fundamental na compreensão do megalitismo ibérico e europeu…

Os característicos “báculos de xisto” são peças arqueológicas encontradas perto de megálitos portugueses, com a mesma datação. Estes objectos eram um símbolo de poder, denotando uma estrutura social cada vez mais elaborada neste fim de Neolítico, inicio de Calcolítico.

Báculo de xisto encontrado no Alentejo

Primeiras fortificações

A transição do Neolítico para a Idade do Bronze em Portugal provocou profundas mudanças sociológicas, com o aparecimento de povoados fortificados durante o Calcolítico Inicial (cerca de 2800 a.C.) e o seu posterior abandono durante o Calcolítico Pleno.

Teoria dos Povos do Mar

Duas teorias tentam explicar a emergência das fortificações calcolíticas. O difusionismo, defendido por Eugénio Jalhay nos anos 1940, afirma que a cultura calcolítica se deveu às influências de indivíduos alóctones. Estes construíram povoados fortificados, como faziam nas suas terras de origem, para se defenderem das populações indígenas. Para apoiarem esta teoria, os investigadores E. Sangmeister e H. Schubart afirmavam nos anos 1970, a partir das suas escavações no Zambujal (Torres Vedras) que os habitantes deste povoado eram ou colonizadores oriundos da zona oriental do Mediterrâneo, ou comerciantes em metal, com clientes também no Mediterrâneo oriental.

Castro do Zambujal
Castro do Zambujal. Foto de Vitor Oliveira

Para os difusionistas, as semelhanças dos povoados da Estremadura com as construções do Próximo-Oriente não seriam fruto do acaso, ainda para mais quando a proximidade com o Atlântico favorecia contactos com povos vindos do mar. Tais semelhanças também se observavam na cerâmica canelada, típica do Calcolítico Inicial, similar a peças oriundas dos povos do mar Egeu.

Teoria indigenista

O modelo indigenista, que ganhou força nos anos 1980, afirma por seu turno que as populações autóctones construíram estas fortificações pela evolução natural que o conjunto da bacia mediterrânica conhecia neste período de transição. Necessidades e problemas idênticos provocam soluções idênticas, bem patentes nas três grandes fortificações da Estremadura, Zambujal, Vila Nova de S. Pedro (Azambuja) e Leceia (Oeiras). Cada fortificação adaptou-se às suas condicionantes geomorfológicas, inseridas em áreas propicias ao cultivo e às trocas comerciais, mas com características comuns.

Leceia
Ruínas de Leceia. foto de Diogo Pimenta

Pequenas aldeias, grandes muralhas

As populações protegidas por muralhas não passavam dos 200 a 300 indivíduos por povoado fortificado, o restante vivendo extramuros. A área de influência cujos recursos eram captados pelo povoado devia estar limitada a 2 ou 3 horas de marcha em seu redor, não sendo necessário mais para alimentar toda a população. Estas construções imponentes, mais do que para defenderem os seus moradores de uma ameaça real, deviam servir de marco cultural, dando coesão a uma população que se revia como fazendo parte de um todo único.

Seriam fortificações construídas preventivamente, contra inimigos potenciais que não tinham estruturas defensivas análogas, mas que poderiam querer captar as riquezas de Leceia, do Zambujal ou de Vila Nova de S. Pedro. A pesquisa arqueológica parece confirmar a teoria indigenista, uma vez que não se têm encontrado vestígios nos três grandes povoados estremenhos de populações alóctones, nem sequer presença de cobre durante o calcolítico Inicial. Esta ausência do metal invalida um dos pilares da teoria difusionista, em que a presença de cobre tinha sido motora na construção de sistemas defensivos.

O misterioso abandono das aldeias fortificadas

No Calcolítico Pleno, as estruturas defensivas de Leceia (povoado tomado em exemplo por ser o mais bem datado e documentado) estavam ao abandono. Para este período, as cerâmicas típicas apresentam decoração em “folha de acácia” ou “crucífera”. Surge o trabalho do cobre, com pequenos objetos e ferramentas mais eficazes do que os seus equivalentes líticos. O cobre ainda não é nesta altura um fator de profunda mudança social ou económica, invalidando uma vez mais as teses difusionistas.

Cultura Campaniforme

Durante a segunda metade do III milénio a.C., as populações da Estremadura já não se encontravam em grandes povoados fortificados. Ainda não se conhecem as razões para tal facto. É nessa altura que surge a cultura Campaniforme, cujo nome foi escolhido pela forma característica da cerâmica então produzida. O povoamento era feito por pequenos grupos de raízes familiares. Um modo de funcionamento que talvez fosse mais pertinente na hora de explorar e produzir os recursos necessários para a sua sobrevivência.

Cerâmica campaniforme
Cerâmica campaniforme

Hoje acredita-se que foi a crescente intensificação económica e a especialização das produções da sociedade agro-pastoril que desencadeou a construção de povoados fortificados. O crescimento demográfico importante deste período que a Revolução dos Produtos Secundários permitiu levou à competição entre vários grupos populacionais.

A necessidade de uma organização cada vez mais eficiente, para produzir em quantidades suficientes para todos e para se defender de outros grupos levou à lógica das fortificações. Eram sociedades abertas para o exterior, faziam comércio com os vizinhos, o que explica as influências indirectas de outros povos do Mediterrâneo. Infelizmente, ainda não se conhece porque estas sociedades vieram a abandonar os grandes povoados no decorrer do Calcolítico Pleno e no período Campaniforme…

Bibliografia

WILLERSLEV, Eske et al. Early farmers from across Europe directly descended from Neolithic Aegeans – PNAS [em linha], 21 juin 2016

MONGE SOARES, António Manuel; CARDOSO, João Luís – Cronologia absoluta para as ocupações do Neolítico Final e do Calcolítico Inicial do povoado pré-histórico de Leceia (Oeiras). In CARDOSO, João Luís – Estudos arqueológicos de Oeiras, volume 5. Oeiras, Câmara Municipal 1995 (pp. 263-276).


Conversa

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