Mosteiro de Seiça
Mosteiro de Seiça

Mosteiro abandonado de Seiça

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No meu ultimo dia de férias na terra dos meus pais, fomos dar uma volta de carro perto da casa familiar. O meu pai estava à procura de uma festa de aldeia não muito longe, que um colega de trabalho lhe tinha indicado. Qual não foi o nosso espanto, após termos tomado uma pequena estrada mais ou menos ao acaso, de descobrir… o que pode ver nas fotos.

Meu Deus, mas o que é isto? Mas é gigantesco!

Eis o que dissemos, vendo este edifício imponente e misterioso, à beira de uma pequena estrada do campo, perdido no meio de nada. Parece uma igreja fantasma… e é quase o caso: é de facto o antigo Mosteiro de Seiça, um antigo mosteiro que existe desde tempos imemoriais, talvez mesmo antes da fundação do reino de Portugal, em 1143.

Seiça é uma localidade da freguesia de Paião, no concelho da Figueira da Foz.

Vista lateral do mosteiro
Vista lateral do mosteiro

Curioso, tomo a decisão de ir ver mais perto este belo monumento totalmente abandonado, apesar da noite esta a cair, altura propicia para que um lobisomem ou um fantasma venha devorar-me… Mais tarde, vim a descobrir histórias de um monumento assombrado… Sabe-se lá o risco que corri!

Ou talvez o perigo bem real de derrocada levou à invenção de histórias para que os meninos e meninas não tenham ideias de aventuras na venerável ruína…

Podemos dizer que fiz “urbex” sem querer. Urbex, aquela prática cada vez mais comum de visitar locais ao abandono tal como este…

Um mosteiro esquecido

Mosteiro - ou convento? - de Seiça
Mosteiro – ou convento? – de Seiça
Fachada em ruínas...
Fachada em ruínas…

A igreja é imponente. Não se está à espera de ver um edifício destes aqui. A região de Paião está cheia de pequenas igrejas, bem longe deste mosteiro que mais parece uma catedral.

Pode-se ver, atrás, uma curiosa chaminé (com um ninho de cegonhas por cima…). Curioso, não é? Será que os monges tinham alguma actividade industrial? Afinal, não.

Vamos saber um pouco da história do mosteiro, para sabermos mais.

Prédios anexos e torre da fachada.
Prédios anexos e torre da fachada.

Um pouco de história…

O fundador da Nação Portuguesa, Dom Afonso Henriques, filho de Henrique de Borgonha, teve a sorte de assistir à um milagre, perto de uma pequena capela, a Nossa Senhora de Seiça.

Estava ele a caçar por terras de Seiça quando um dos seus acompanhantes caiu de cavalo e morreu. Enquanto se esperava pelo seu enterro, o cadáver ficou na ermida que lá se encontrava. E foi lá que ele voltou à vida!

Para agradecer a Deus por este milagre, Afonso Henriques decide de construir um mosteiro em Seiça, dedicado à Virgem Maria. Uma vez acabado, talvez por volta de 1162, o mosteiro entrou na ordem de Cister, e foi dado ao Mosteiro de Alcobaça por Dom Sancho I, filho do primeiro rei de Portugal.

Em 1348, o ano da terrível peste negra, o mosteiro sofreu bastante. 150 religiosos perderam a vida em dois meses.

Em 1513, o rei Dom Manuel faz restauros no mosteiro, que estava naquela altura em mau estado. Estes trabalhos fizeram do Mosteiro de Seiça um dos melhores da região, já rica em grandes edifícios religiosos.

A fachada que podemos apreciar hoje foi remodelada no século XVIII, como o podem testemunhar diversos elementos arquitecturais. Com o fim das ordens religiosas em 1834, o mosteiro foi vendido a privados, que o transformaram em fábrica para tratar o arroz.

A industrialização do outrora lugar de culto levou à construção da chaminé que vemos hoje. A fábrica acabou por encerrar, como tantas outras após o 25 de Abril, em 1976.

Todas as estátuas, objectos e outras peças importantes foram retiradas, desapareceram ou foram utilizadas em outras igrejas.

Pormenor da fachada do Mosteiro de Seiça
Pormenor da fachada do Mosteiro de Seiça

A capela

O Mosteiro hoje não tem função, abandonado, apesar de estar inserido numa região de grande beleza. A zona é rica em arroz, e possui paisagens únicas e variadas, o que explica a criação para turismo de uma “Rota de Seiça“: é um percurso para se andar a pé, que se faz em algumas horas, durante 13 kms, com a capela da Nossa Senhora de Seiça logo ali ao lado.

Capela de Seiça
Capela de Seiça

A capela, muito cuidada, foi restaurada. A tarefa era bem mais fácil do que para o mosteiro, sendo este muito mais caro a restaurar.

Capela de Seiça
Capela de Seiça

A capela foi estabelecida no ano de 850, como ermida. A sua fundação, lendária, remonta à derrota dos Mouros após o cerco falhado de Montemor-o-Velho. O Abade João, após a sua defesa heróica de Montemor, perseguiu os Mouros até Seiça, onde os derrotou uma vez mais. Para assinalar tamanha vitória, ergueu-se ali uma ermida, de que nada resta hoje após a sua derrocada de 1590. Foi nesta ermida que se deu o milagre com Dom Afonso Henriques que descrevemos.

A capela que podemos ver actualmente é o fruto de uma reconstrução que data de 1602, a única de forma octogonal na península ibérica.

No interior da capela, vários quadros, que representam a lenda de Montemor e o milagre de Seiça. Aqui, a ressurreição na ermida.
No interior da capela, vários quadros, que representam a lenda de Montemor e o milagre de Seiça. Aqui, a ressurreição na ermida.

Um monumento em ruínas

Tomando coragem (na realidade, nem por isso, nem sequer pensei se o mosteiro poderia desabar por cima de mim…), fui tirar umas fotos. Aproveitem bem, foi ao arriscar a minha vida que podem hoje ver estas fotografias (sim, exagero um pouco).

Gravura do jornal "O Ocidente" de 1887
Gravura do jornal “O Ocidente” de 1887. Ainda não se vê a chaminé actual…
Buraco aberto no tecto
Buraco aberto no tecto

Isto é o que se pode ver, se olharmos para cima, uma vez passada a porta principal. Um enorme buraco, dando directamente para o céu, e as plantas que caem dele…

Tijolos de fábrica dentro do mosteiro
Tijolos da fábrica dentro do mosteiro

Olhem só um pouco o atentado que foi feito contra um tão belo monumento… Dividiram os volumes com simples tijolos. Como se pode chegar a tal?

Interior do mosteiro
Interior do mosteiro
Outra vista do interior
Outra vista do interior
Ruínas do mosteiro... ou da fábrica?
Ruínas do mosteiro… ou da fábrica?
Interior degradado
Interior degradado
Esta porta é um emblema infeliz do estado ao que chegou o mosteiro...
Esta porta é um emblema infeliz do estado ao que chegou o mosteiro…

Longe dos olhos, longe do coração…

O mosteiro conservou apesar de tudo as suas dimensões majestosas, os seus belos volumes. A vegetação está presente em todo o lado. Não resta praticamente nada do antigo claustro.

O processo de salvaguarda deste património invulgar é lento. Problemas burocráticos e falta de verbas, aos quais junta-se uma manifesta falta de interesse não ajudam. Apesar de tudo, em 2002, o imóvel foi classificado de interesse público, tendo sido adquirido pela autarquia.

Por fim, tomou-se a decisão em 2018 de classificar o mosteiro como monumento nacional. Doravante, a autarquia da Figueira da Foz pode candidatar o seu monumento a financiamentos importantes. Mas em 2020, o processo de classificação ainda não foi concluído!

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